segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A prova

Finalmente só agora foi possível, e graças ao tirocínio/maestria do "colega meu", multi-se-vira-em-todas, vizinho de rua, rafaadrenalia32@, autor da foto ao lado, mostrar a ilustre moradora da "casa das corujas".
Esta é a persona, mais o seu companheiro, o caçador mor da Praia da Cruz, território que demarcaram na aldeia, formam o casal de coruja buraqueira, acolhido por nós, e que se tornou nossa companhia por cerca de dois anos, exercitando uma convivência respeitosa, partindo do princípio que todos podem coabitar Gaia.
Ele aproveitou uma parte quebrada do muro, que dá pra garagem da casa onde moramos, pra se instalar e continuar perpetuando a espécie.
Mudamos pra outra casa na mesma rua e o casal continua lá.
Agora fazemos visita e ele retribui.
Como se vê, ela tá na posição preferida, equilibrando numa perna, com cara de braba, pronta pra defender o seu espaço.
Pena não ter sido possível também captar o som do seu pio, outra forma de avisar pra não se meter com ela.
Ele já cumpriu o ciclo biológico anual de colocar ovos, chocar, cuidar, durante cerca de 50 dias, de mais quatro filhotes, pra povoar ainda mais a aldeia.
Uma nova ninhada, agora, só ano que vem, a partir de maio, salvo não seja expulso na temporada de verão que se avizinha.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Comportamento


Os nossos vizinhos são evangélicos. Inclusive, o da frente de casa, é pastor.
É uma das características da aldeia, o grande número de evangélicos, a ponto da quantidade de templos se rivalizarem com as portas de botecos.
As igrejas católicas também não ficam atrás.
Enfim, a disputa por ovelhas aqui é uma batalha encardida.
Uma das observações sobre os vizinhos são os encontros que realizam. Até agora não extrapolaram, portando-se com certa civilidade, sejam eles realizados durante o dia ou à noite, sempre com hora pra começar e terminar.
Não que não falem alto ou não cantam ou não reproduzam músicas em aparelhos ou não tenham crianças.
A minha teoria é que por não rolar bebida alcoólica, os impulsos ficam mais reprimidos, embora demonstrem uma certa liberação, com o êxtase das músicas ou de algumas brincadeiras. São ávidos consumidores de refrigerantes, ruim pra saúde.
Mas nem tudo são flores. Na quadra seguinte tem uma casa que abriga o Povo Sem Praia. Lá o bicho pega. É reduto pesado, de bebida e pesadelo, do tipo aqui o sistema é bruto.
Qualquer feriado, com o de agora, bate a expectativa de confronto. É caso de polícia, que mesmo sendo acionada - tem o respaldo de uma portaria do juiz local -, não entende o caso como "delito grave". Como se fosse possível contemporizar os tipos de delitos. A pena é até discutível.
No feriado de 7 de setembro, os caras barbarizaram com som alto nos carros, cantadas de pneus, barulho de motos sem o miolo da descarga e conversas com mais de 60 decibéis.
É uma sensação de se sentir refém desses energúmenos.
Vamos ver o que acontecerá.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

As figuras da aldeia I


Em qualquer parte existem figuras típicas que formam o conjunto da sociedade local, sejam por suas características físicas ou por atitudes em público. É o dinamismo da sociedade.
Nada de discriminação, mesmo porque me considero também personagem desse enredo.
A aldeia é um remanso desses tipos. Basta uma manhã por aqui que será capaz de ver dezenas deles nas ruas.
Um dos tipos é formado por uma mulher exótica, na faixa etária do cinquentinha, cabelo sempre pintado na cor branca de boneca da espiga de milho, vestida num short curto, o seu homem, na casa dos quarenta, e a "filha", uma cachorra pinscher.
Cumprem uma rotina diária, pela manhã, de casa até um mercadinho, em fila, na seguinte ordem: A "filha", o pai e a mãe. O pai zeloso, atento aos movimentos da "filha", nos cruzamentos das ruas, chamando pra andar quando desvia ou fica pra trás:
Vamos filha, cuidado filha, corre filha.....
Quando o tempo esfria, ele tem sempre uma fralda para cobri-la e colocá-la em baixo do braço.
Essa rotina já dura uns seis anos.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

É outro dia


O sol voltou e todas as janelas foram abertas pra ele entrar.
É impossível garantir quanto tempo ficara. Melhor que seja assim. Se fosse regulado por um ser humano, a discórdia seria ainda maior. É complicado agradar essa raça. Portanto, deixa como tá. Ora chuva, ora sol.
Toda vez que volta, após uma chuva, o sol traz junto um belo espetáculo para os observadores do tempo aqui da aldeia. Ela fica ao nível do mar e tem no seu oposto, a oeste, toda a cadeia de montanhas que forma a Serra do Mar, maciço que começa em Santa Catarina, vem subindo próximo da costa brasileira, terminando no Espírito Santo, mais precisamente entre os municípios de Ibiraçu e Colatina, onde está o rio Doce.
A luminosidade, nesse retorno do sol, não é intensa e, também, não existem nuvens ou neblina pra embaçar o visual, deixando uma paisagem limpa. Foi o que vi hoje pela manhã, mais uma vez, ao ir à feira do produtor: Recortes e detalhes mínimos de cada montanha, espelhados numa nitidez e coloração azul, coisa de arrepiar, que se estendendo ao longo de todo maciço, por onde o olhar alcança, beleza vista só a partir daqui. Um presente da mãe natureza, generosamente ofertado a todos nós, traduzindo suas diversas formas de vida.
A aldeia permite outro visual pra contemplação. É só caminhar pela praia Nova, próxima da foz do rio Itapemrim, que se tem à frente o mar e ao fundo parte dessa parte da Serra do Mar.
Tá feito o convite. Venha ver!
Ps: O vento nordeste, que tava represado, bate com sua força peculiar. É tempo dele.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O tempo


Este tema não é falta de assunto.
Parafraseando Caetano Veloso, alguma coisa está fora de ordem.
Estou praticamente há quase três meses sem uma sequência na hidroterapia, pra me manter de pé, na luta diuturna pra preservar a sobra de autonomia, consequencia da siringomielia, doença com que convivo há 18 anos, e que progressivamente compromete membros superiores e inferiores.
Aliás, nesses seis anos morando na aldeia, não tinha enfrentado um "inverno" como esse.
Aqui não tem uma piscina coberta. Aquecida tem, mas sua condição de uso, pra um "malacabado", é torturante. E não adianta pedir melhorias. Falta sensibilidade.
Resta, então, contar com generosidade da natureza, que neste ano desequilibrou.
São inúmeros os exemplos. Segunda, 28/9/2009, o sol pocava, alimentando a perspectiva de uma sequência na hidroterapia. Hoje, 31/09, tô de meia, calça de moletom, blusa de frio e devo usar edredom pra dormir, ao invés de uma simples colcha. Não me lembro, neste meio século de existência, ter enfrentado um dia de primavera com essa intensidade de frio.
Na ida a Brasília, pra revisão médica no hospital Sarah, nesse começo de setembro, encontramos uma paisagem verde e o ar com umidade, contrariando a ordem das coisas. Lá é tempo de secura, de sol refletir em vidro, provocando incêndio.
Tremor na Indonésia, tufão no Vietnã, terremoto no Peru, tsunami em Samoa e frio abaixo de zero no sul do Brasil. Como diria Tutty Vasques, é a turnê do fim do mundo por todos os lugares.
Gaia tá reagindo.
E eu, esse pequeno organismo vivo dessa complexa cadeia, torcendo pra engrenar uma sequência de exercícios.

sábado, 26 de setembro de 2009

Eu tenho Siringomielia VIII


Depoimento

Gosto desta frase: Abra a janela e deixe entrar o sol.
Nas elucubrações pra criação do blog, estimulado pelo intrépido Dino Gracio, vadiei pelas possibilidades que essa decisão traria, principalmente quanto ao aprendizado. Afinal é o que me instiga e me move. O sabe tudo esqueceu de nascer.
Passados perto de 10 meses de ter atirado essa pedra nesse imenso oceano, pequenas ondas vão se formado. E o sol cumpre a sua tarefa, mostrando outros ângulos, que estão dando forças pra empurrar essa bicicleta.
Há poucos dias recebi um e-mail da Venuzia R. Franco, também portadora da siringomielia. O seu relato é o puro exercício de vida, da nossa luta por viver. Trocamos outro e-mail e ela autorizou a sua publicação. É o que faço, com alegria, homenageando, ainda, aqueles que passaram aqui deixando seus comentários, ou não, na certeza que apesar das dificuldades, limitações e da falta de perspectiva de cura, temos vida pra edificar nossa fortaleza e fazer uma história de vencedores.

"Prezado Carlos,
Pela primeira vez acessei seu blog e não consegui parar de ler seus textos "Eu tenho siringomielia". Pois é: eu também tenho siringomielia há 27 anos. Tudo começou quando eu tinha 25 anos e tive que fazer uma intervenção cirúrgica por causa de um aborto espontâneo. Tive que tomar uma anestesia raquidiana e dai pra frente minha vida mudou. Tive dores terríveis no hospital e os médicos não conseguiram entender por que. Seis meses depois, por causa de formigamentos na planta dos pés, procurei meu médico clínico que me encaminhou para o neurologista. O diagnostico foi siringomielia, provocada pela anestesia que atingiu a medula. Resumindo, como você, fui perdendo aos poucos os movimentos. Andei de bengala, muletas e por fim, me rendi a cadeira de rodas. Hoje, não ando, perdi os movimentos do braço direito e já tenho dificuldade com o braço esquerdo, mas como você me nego a deixar de viver. Cada perda eu me adapto. Nesses 27 anos de convivência com a doença, tive dois filhos, uma menina, hoje com 23 anos, e um menino, com 26 anos. Naquele tempo, estava cursando administração. Tive que parar pois não tinha como me locomover dentro da universidade. Continuei trabalhando, Tempos depois me formei em direito (no meio do curso tive que aprender a escrever com a mão esquerda, pois perdi totalmente o movimento da mão direita). Elegi-me deputada estadual, fui secretária de Estado e, hoje, tenho um escritório de advocacia. Deixei de fazer muita coisa que gosto, mas me concentro naquilo que ainda posso fazer. Levantar, pela manhã, é um desafio, e continuo seguindo em frente, até onde Deus quiser. A minha única queixa é a falta de tratamento, pelo menos para minimizar as dores. Já estive no Sarah, mas não vi muita melhora. Fiz duas cirurgias para colocação de drenos, ambas não funcionaram. Vi seu blog quando estava procurando por novidades sobre a doença. Fiquei muito impressionada e me identifiquei com você. Também optei por viver, mas vou ter que dar um tempo e me cuidar. A coisa tá ficando muito feia.
Um forte abraço e continue seguindo em frente.
E muita força para você e sua esposa
Venuzia R. Franco"

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Precipício


Menina Céu cada vez mais se transforma num precipício. Seu instinto predador está voraz. Não perdeu o tino da sensatez, mas se lançou definitivamente nos braços do prazer. Despirocar de vez pode significar sua queda no precipício. E isso, com certeza, não vai fazer, pois colocaria em risco tudo o que gosta, caçar. Inclusive, reduziu suas obrigações trabalhistas, flamando igual ao seu chefe, resumindo a semana a um pit stop na segunda, terça e quarta, pra exercitar sua arte.
O seu problema não é saúde e nem glamour. É dinheiro. Como gostar de falar.
Coisa simples, né?
A conquista mais recente é um "alemãozinho", de modos requintados, e que frequenta locais diletos da burguesia brasiliense. Menina Céu não tem demonstrado muito entusiasmo com essa conquista, alegando que o ato termina logo no stripe. Isso a tem levado a "repensar a relação", piscando com a volta pra casa. Ou seja para os braços do negões, eles, sim, capazes de fazê-la rodopiar pelos salões da capital federal, fechando a noite com cavalgadas homéricas, que duram horas a fio.
Chamem os bombeiros!!!
Nessa altura da peleja já deve ter voltado à origem, pois o relato é do início do mês, quando passamos por lá e, pra ela, tempo é prazer.