quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Bravo Tromba!!!!!!!


Os campos de futebol no Brasil estão cheios de jogadores negros. Não tenho estatística pra explicitar minha elucubração, mas é só olhar pra os times que identificamos essa supremacia. Eles são os caras tocando a pelota. Pertenço há este tempo, embora eles estejam hoje mais pra lascar a canela ou maltratar a redondinha.
Essa realidade não se reproduz com os "professores", aquela figura da beira das quatro linhas a esbravejar ordens, cunhadas de "teorias futebolísticas", atrás de vitórias que garantam seus empregos.
Por mais paradoxal que a situação se mostre, ela não deixa de refletir a injusta escala na ascensão social da hierarquia na sociedade brasileira. Diria até ser um quadro caricato, pura ironia com o nosso futebol, que move montanhas e multidões, justamente ele que é visto com a porta de entrada na escala social.
Dos vinte times que hoje disputam a primeira divisão do Campeonato Brasileiro, até bem poucos dias não tinha um técnico negro. Talvez dois ou três com características negras, detalhes que fazem parte da grande massa.
Por isso a efetivação do Andrade, o Tromba, no comando do Flamengo, é uma novidade. Cinco vezes campeão brasileiro, torço pra que ele repita o que sempre realizou dentro dos campos, com técnica e sabedoria, que foi jogar bola.
Não espero do Andrade o que escreveu José Saramago, no seu ótimo O Caderno de Saramago: "Crie já uma equipa de futebol, uma equipa toda de jogadores monárquicos, treinador monárquico, massagista monárquico, todos monárquicos e, se possível, de sangue azul. Garanto-lhe que se chega a ganhar a liga, o país, este país que tão bem conhecemos se ajoelhará a seus pés."

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Eu tenho Siringomielia VII


TFD

Ao retomar o tratamento da siringomielia, em 2006, no hospital Sarah Kubitschek, Brasília, após 14 anos da confirmação da doença, um prenúncio de dificuldade espreitou-se no horizonte. Como custear as passagens e a estadia na capital federal? É um centro com custo de vida mais caro do planeta. Vivi isso.
O neurologista, Dr. Henrique de Souza, que acompanha meu caso, encarregou de afastar esse temor, indicando o programa de Tratamento Fora de Domicílio - TFD. É recurso Federal, administrado pelas Secretarias Estaduais de Saúde, pra transportes (aéreo ou terrestre) e diárias (20% do salário mínimo), incluindo acompanhante se for preciso. Passei no Serviço Social do hospital pra mais informações, onde peguei o telefone do órgão no Espírito Santo.
Não procurei logo o TFD, acreditando que era uma questão fácil de ser resolvida, deixando pra bem próximo do retorno ao hospital.
Subestimei à "burrocracia".
Os programas públicos precisam de critérios. Isso não se discute. Sem querer ser simplista, mas transparência e preparo das pessoas são requisitos básicos pra qualquer iniciativa.
As dificuldades começaram com o médico do órgão, que ia lá uma vez por semana, apenas por duas horas. Depois de três tentativas, marquei e não fui atendido. O TFD fica em Vitória, capital. Eu moro em Marataízes, a 137 km de distância. Fui atendido na próxima vez porque falei em acionar o Ministério Público, recomendação da assistente social do Sarah.
A tarefa do médico era indicar outro profissional pra fazer a avaliação do meu caso, preencher os formulários, assinar, atestando que a doença precisava de tratamento fora de domicílio.
De frente com o cabra, otorrinolaringologista, explique tudo a ele da siringomielia. Aparentemente sensibilizado me encaminhou ao Centro de Reabilitação Física do Estado - Crefes -, em Vila Velha.
A consulta foi agendada pra daí a 20 dias. Ao entrar na sua sala vi que o médico não era estranho. Com especialidade em fisioterapia, tinha passado por ele no início de 1990, durante a investigação da "mimi". Ele não esperou que concluísse a explicação, pedindo que voltasse ao TFD pra procurar um neurologista. Nem discuti.
De volta, indicaram os Hospitais Evangélico ou das Clínicas, da rede pública, quesito essencial para se ter o benefício.
Coisa simples, não?
Com ajuda da amiga, Terezinha Rangel, marquei com o neurologista do Evangélico, que morava no Rio de Janeiro e atendia duas vezes por mês no hospital. Ele preencheu o relatório, assinou e carimbou sem que fosse preciso entrar no seu consultório. Numa passada de olhos, avaliei que atendia as exigências. Entreguei ao TFD, confiante.
Uma semana depois, liguei atrás da confirmação. Agora "só servia o laudo do hospital das Clínicas" e que também era necessário "preencher o código do tratamento" para enquadramento no SUS.
Foram cerca de quatro meses nessa peregrinação. A data do retorno ao Sarah esgotou-se, mas minha perseverança, não. Ir em frente e derrotar o monstro, agora, era uma obsessão.
Conversei com o Dr. Orlando Abaure que tratava da outra moléstia em busca de ajuda. Ele contatou a titular da cadeira de neurologia da Ufes - Universidade Federal do ES -, a quem pertence o hospital, a Drª Vera Vieira.
Quando estive internado nesse hospital, a notícia que também tinha a "mimi" correu pelos corredores. A Drª. Vera levou duas turmas de estudantes pra conhecer a avis rara, passando pela sessão "martelinho".
Ao entrar na sua sala o circo estava armado. Sentada numa cadeira, atrás da mesa de trabalho, tinha ao seu redor uma dezena de estudantes. Não era hora de fraquejar. A retomada do meu tratamento seria decidida ali. Expliquei o estágio da "mimi", a decisão pelo Sarah e a busca de ajuda no TFD.
Ela, que tem timbre de voz com sonoridade alta, mirou os pupilos e lascou:
- Acha que não podemos fazer ressonância e acompanhar a sua doença.
Gelei. Tive medo.
Recompus as forças, argumentando que o estágio da doença exigia o tratamento num centro de excelência como o Sarah. Pra não admitir a precariedade local, saiu pela tangente, afirmando que " realmente o Sarah é referência em fisioterapia" e que também "estava sensibilizada" com o pedido do "amigo, Dr. Orlando".
Alívio. Aguardei fora e 20 minutos depois o laudo estava nas mãos, entregue por ela, que saiu andando apressadamente quase não dando de agradecer. Agora restava o carimbo e a assinatura de um diretor do hospital além do código. Nada que não se resolvesse. O código, mais difícil, meu "irmão", Walmir Fioroti, que trabalha na Secretaria de Saúde, se encarregou de achar a chave do mistério.
De posse da papelada, a Paula, minha mulher, xerocou e autenticou uma cópia, como segurança,
e fomos protocolar no TFD. Ao analisar a documentação, a funcionária "descobriu" que meu domicílio, Marataízes, estava subordinado ao TFD de Cachoeiro do Itapemirim, Sul do Espírito Santo.
E agora? Pular do sexto andar do órgão, indo direto para o palco do Carlos Gomes, tradicional teatro capixaba, bem ali, ao lado, e representar o bobo da incompetência, da desorganização e da estupidez de parte do serviço público?
A troca foi excelente. Uma recompensa. Encontrei Angela Babinski, responsável pelo órgão, cidadã preparada, sensata, uma colaboradora correta. Final feliz.
Passei a usar benefício naquilo a que se destina.
É o meu compromisso.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Uma condenação


O sempre antenado Blogracio publicou ontem, 03/08/2009, informação da decisão unânime da 2ª turma especializada do TRF da 2ª região - Justiça Federal do Espírito Santo, condenando por crime de racismo contra índios, o "colonista" Gutman Uchôa de Mendonça, do jornal A Gazeta.
Ela veio tarde - como ele tem mais de 70 anos, a pena é um ano de serviço à comunidade - por tudo que despejou contra todos, em quase meio século ininterrupto de serviços prestados à direita capixaba. Grande parte, diariamente, e mais recentemente, três vezes por semana, em espaço nobre do jornal.
É de se penitenciar ainda ser essa sua única condenação, pelo menos a que tenho conhecimento.
Da mesma forma, não espere encontrar essa notícia nos jornalões. Não faz parte do jogo.
Não vai dizer nada, é claro, mas seu espírito deve ser de regozijo com essa pena.
Vou relator dois fatos vividos com ele.
Ao dar os primeiros passos aprendendo o jornalismo - ainda vou aprender - em 1970, na Rua General Osório, centro de Vitória, a "república da Bolívia", onde golpe era rotina na redação, como no país vizinho, Gutman foi profético:
- O bom é você ser de direita.
A julgar pela sua longevidade, os ataques impunes e os cargos que ocupou - só no Sesc foram anos a fio - não exagerou.
O outro é mais recente. No começo de 1990 assessorei o então vice-governador do Estado, Adelson Salvador. Num rompante Quixotesco, em uma de suas interinidades no cargo de Governador, ele tentou peitar a banda podre da política capixaba, hoje, rebatizado de crime organizado, que anda por aí fantasiada de "demo".
Recebi uma informação que Gutman tinha escrito um serviço sujo, questionando a sexualidade do Adelson. Batata. No dia seguinte, o "colonista" tergiversou, disse e não disse, viajou, mas tascou no meio do texto encomendado, publicado em A Gazeta, nessa época, no Caderno Dois, que o codinome do vice-governador nas baladas era "Patrícia".
Talvez o berço de Gutman explique parte da sua personalidade. Ele é de São Mateus, Norte do Espírito Santo, um dos centros do país onde a escravidão foi mais feroz. Lá chegou a existir fazendas de reprodução de escravos, e filhas de escravas foram jogadas em tachos de água fervendo. São relatos do jornalista e historiador, Maciel de Aguiar.
A família de Gutman é casta dessa sociedade rural, que por muito tempo comandou o Estado. Ou seja, típico servidor da Casa Grande.

sábado, 18 de julho de 2009

Grilo cantante

E nós que pensávamos estar sós na guerra ao barulho, este complemento atual na rotina dos cidadãos e cidadãs, coisa tal qual respirar. Não se vive sem barulho, como procurou mostrar a matéria do maior jornal - no tamanho-, de Áua Mbaê Porã, informando que nossa cota diária do barulho é de 70 decibéis.
Não que ele não esteja presente na aldeia. A casa é de esquina e fica próxima a uma creche. É no verão, com a invasão do PSP - Povo Sem Praia -, que a rotina transborda. Aí é preciso chamar a polícia pra mostrar que volume de som tem limite.
Nosso apuro recente foi com um grilo. A criatura, na sua percepção do tempo, é infalível. Assim que o anoitecer dava sinal, ele disparava a corneta, que subia paulatinamente até chegar ao nível de estridência. O mais impressionante é a sequência do seu "canto". Parece que o cara não respira, gritando alucinadamente por horas intermináveis. Ao dia, ele some.
Caçá-lo mostrou-se infrutífero pois estava na parte de fora da casa. Aí seria necessária uma lanterna, o que é um exagero. As corujas também não apareceram pra fazer valer o ciclo da natureza.
A agonia durou uns cinco dias e a solução pra dormir foi fechar as portas dos banheiros de onde vinha o som do grilo cantante.
Acho que ele escafedeceu-se.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Arroz de polvo


A vida é um grande aprendizado. Mas é preciso estar disponível, pois o detalhe do conhecimento pode surgir tanto na experiência positiva como naquela que não deu certo. O não uso da palavra negativa nada tem a ver com qualquer sintoma de transtorno obsessivo compulsivo. Sou positivista. Quando a má fase aparece, fico quieto que ela passa.
Além do mais, o inimigo do aprendizado é a cegueira cognitiva, achar que sabe tudo.
Sexta última, 11/7, rafaadrenalia32@ pagou uma promessa com quase um ano de atraso. Anunciou que tinha conseguido um polvo de 3kg, fisgado pelo seu tio no mar em frente à aldeia. Em princípio relutei. Até então minha experiência estava limitada a fazer o prato, arroz de polvo, que se come no almoço e repete no jantar, com o polvo em torno 1,5kg, por considerá-lo mais fácil ao cozimento. Assim, evita-se que se coma um "arroz de polvo borracha".
Quebramos o paradigma.
O polvo acabou levando mais tempo pra ser cozido, normal, em torno de 2h00, na panela de pressão, contra 1h15 do de menor peso. Sem o tal do ritual de "bater pra amaciar". A grande sacada foi sua visibilidade no arroz, aquilo que chamam belo prato. Por ter os tentáculos maiores, ele acaba sobressaindo, ficando perceptível aos olhos e ao ser mastigado, dando ao paladar a exata noção de estar se fartando como um mortal. E que o mar continue pródigo em ofertá-lo. Amém.
Foi um belo almoço, que juntou a habilidade da Paula, inspirada, polvo com peso ideal, bem conservado, com o desejo reprimido de voltar a fazê-lo e comer.
Apesar de encontrá a iguaria aqui com certa facilidade, o preço anda dando congestão.
Uma parte foi reservada pra outra comilança, imbuída da missão de converter o Rafa a gostar do prato. Talvez assim quando estiver pescando sua lagosta, considere a hipótese de também trazer o polvo, pois são frutos encontrados no mesmo habitat.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Olha o "nordestão" aí, gente!


Há tempo que ele não soprava com a intensidade dos dois últimos dias. Fez até pensar no seu desaparecimento, por causa de uma ausência de uns seis meses, o que, convenhamos, é uma eternidade, mas, - ufa! -. um alívio.
Só hoje, tive certeza do seu retorno. Ontem ouvi barulho de folhas rolando no calçamento e sacolas plásticas em voos rasantes. Mas hoje foi mais ousado, entrando pelas frestas das janelas, mexendo com portas, levantando poeira e retorcendo árvores.
Está aberta a temporada do vento nordeste, que não tem previsão pra terminar. Por isso é necessário ser um observador do tempo.
Agora ele começa soprando pelas 9h00, ganhando força nas horas seguintes, permitindo uma convivência até pacífica, calma, de um vento agradável.
Os dias vão passando, entra cada vez mais cedo, às 7h00. mais veloz, como Senna. O seu auge vai de setembro a novembro. E a convivência, agora, já não é tão pacífica. Ao contrário, o tempo fecha.
É complicado andar nas ruas por causa da areia que joga no rosto e olhos, obrigando o uso de óculos. As casas são fechadas. Na nossa rua, ele conseguiu a proeza de quebrar o galho de uma vistosa castanheira.
Aliás, a aldeia é um caso exemplar da sua pujância, maestria, virtudes reconhecidas pelos maratimbas e forasteiros.
Ela é um dos pontos escolhido no litoral capixaba pra ter uma usina de produção de energia eólica.
Nem tudo tá perdido.

Prestenção: Ao avistar uma quantidade expressiva de marolinhas brancas no mar, conhecidas também por "carneirinhos", lição do mestre Pedro, exímio conhecedor do humor dos oceanos, é a materialização da força do vento nordeste soprando, rebeldia domada só pelo seu oposto, o vento sul, que traz consigo a frente fria.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O pássaro veio dar boas vindas


Tenho uma ligeira suspeita de que o comentário feito aqui sobre sua presença num local tão insólito tenha chegado ao seu conhecimento.
Há poucos dias voltamos a Cachoeiro do Itapemirim, sul do Espírito Santo, e passamos novamente no tal supermercado. Estacionei o carro numa outra parte da frente do estabelecimento, só que agora num local com uma pequena nesga de área, entre o estacionamento e o prédio, arborizada com pequenas árvores.
Num relance, deu pra sentir um movimento ligeiro em frente ao carro, algo como o voo de um pardal, espécie típica desses locais. Passado alguns minutos eis quem pousa sobre o capô: o pássaro, que ainda não identifiquei. Voou logo, acredito, porque tinha acabado de estacionar e é provável que o carro estivesse quente.
Não demorou muito, voltou, mostrando intimidade.
Primeiro andou pelo tal canteiro pra depois pousar no capô do "pretinho", onde ficou por uns dois minutos. Em seguida veio na direção do pára-brisa, pegando um inseto preso na paleta do limpador, que provavelmente foi parar ali no percurso entre a aldeia e Cachoeiro.
Saboreou o banquete ali mesmo, balançou a cabeça de satisfação, agradecendo, voando para o fio da rede elétrica, onde cantou de alegria ao lado de uma companhia, que não vi da primeira vez.
Tudo leva crer que delimitaram aquele território pra eles.