domingo, 4 de abril de 2010

A farra continua


Em 15 de março último registrei "A farra dos royalties" da prefeitura de Presidente Kennedy, litoral sul capixaba, que recebe anualmente perto de R$ 100 milhões do tributo e tem um dos menores IDH do Estado, ao bancar o show do Leonardo na Expoagro de Jaqueira, local de pouco mais de 100 casas.
Li depois na coluna Victor Hugo, A Gazeta/Vitória, nota do Leonel Ximenes "informando" o deslumbre da deputada Estadual Aparecida Denadai (PDT), xodó do prefeito, com o cantor que conheceu na Ilha do Boi, Vitória, voando juntos depois pra Cachoeiro do Itapemirim, de onde pegaram um carro pra chegar ao show.
Mandei um e-mail ao Ximenes sugerindo que registrasse também o outro lado da informação. Acho que não gostou ou o deslumbre da parlamentar era a notícia.
Deixa pra lá. Temos a internet.
Pois não é que o alcaide anuncia pra 7 a 11 próximos o 46º aniversário da cidade, "investindo 500 mil em atrações durante o dia e shows à noite", de Amado Batista a Calcinha Preta. O jornal do Ximenes anuncia "expectativa de 100 mil pessoas". A população local não chega a 11 mil habitantes.
Grandeza e perdulário andam lado-a-lado.
E os royalties? Esqueçam.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Comilança


Do Irmo, companheiro dos primeiros passos no jornalismo, idos de 1974/75, na "Bolívia" da rua General Osório/Vitória, "homenagem" aos freqüentes "golpes" na direção da redação de A Gazeta/ES, contando as peripécias do Padre Anchieta pra se alimentar em terras brasilis. O texto se baseia em cartas escritas pelo beato, em 1560, pesquisada pelo Professor Gabriel Bittencourt.
Anchieta rasga elogios ao peixe-boi marinho, jacarés, antas e quase pira pelas tanajuras. Faz muxoxo para caranguejos, siris e macacos.
Não se assuste com o politicamente correto ou cardápio indigesto pra semana santa. O autor faz as ressalvas pertinentes.
Aqui o texto completo.

sábado, 27 de março de 2010

Sou do tempo do jacá



-Hoje tá tudo muito moderno, mas não deixo meu jacá e minha égua por nada nesse mundo.
Pode parecer prosaico. Não é. É o "seu" Zezinho, um típico maratimba professando do alto dos seus quase 50 anos a sua opção de vida, vender aos moradores e veranistas da aldeia, abacaxi, manga, aipim, transportados em jacás dependurados no lombo de uma égua. Valente, a égua é ainda o seu meio de transporte.
"Seu" Zezinho é um dos bravos a se contrapor ao "tempo é dinheiro".
As "motos hortifruti" são figurinhas fáceis por aqui. Algumas se parecem com um "mercadinho ambulante", dependendo da criatividade e do capital do dono, levando na garupa de verduras a frutas, direto do Ceasa. Indagados, negam, "garantindo" que é produção própria.
A do "seu" Zezinho é orgânica. Se tiver resíduo tóxico é da pulverização aérea nos canaviais da Usina Paineiras.
Um viva ao "seu" Zezinho!
Foto site maratimba.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A turma do Evanil


Eu sou da turma do Evanil
Ele da carne
Eu não volto pro canil

Açougue Boi-nos-aires, do Evanil e do Gilmar formam os points dos vira latas da aldeia. Lá fazem vigília à espera que voe por uma porta um pedaço de pelanca ou mesmo um osso com uma nesga de carne que tenha escapado da sanha da faca do açougueiro. Não é normal porque açougueiro tem zelo por uma boa afiação. Quando acontece é recompensa de dias e horas, sob sol e chuva, um banquete burguês, ficção em casa - vira lata tem dono e casa, gente -, onde impera osso puro, mesmo.
A marcação vem de cedo, junto com a carga que chega em carrocerias de camionetes, direto do "matadouro pasto". Já foi pior. Antes de umas investidas da fiscalização, a coisa era generalizada, incluindo supermercados, inclusive com a carne pendurada "tal qual roupa no varal", de frente pra rodovia/avenida, que corta a aldeia.
A "turma do Evanil" é a maior, de dez a doze, talvez por sua solidariedade a espécie, que abunda aqui. Sem exagero: algo como 2/3 dos nativos.
Agora a turma montou praça em frente à nossa casa, com direito a constantes desentendimentos, latidos pra tudo que se movimenta e, claro, uivo, de um que tá esperando a morte certa.
Aliás, se conselho valer não compre ou alugue um imóvel de esquina.
É como remanso de rio.

terça-feira, 23 de março de 2010

A viagem que não fiz


"Jerominho", de Jerônimo Monteiro, nascido Vala do Souza e depois Sabino Pessoa, fica no Sul Capixaba. Lá estão enterrados no centro de um extinto curral, crença do ajudante Dominguinhos, abonado pelos pais, os restos do meu umbigo, de parto de parteira, pra dar "sorte" e ser um "fazendeiro de terras e gado".
Por lá por anos passou a Estrada de Ferro Leopoldina, partindo de Cachoeiro de Itapemirim/ES rumo a Carangola/MG, contato nosso com o restante do planeta.
Não foi musicada mas, também, ligava "Minas ao porto, ao mar", como Ponta de Areia/Milton Nascimento, "caminho de ferro/que mandaram arrancar", mesmo destino dado a ela.
A sua fundação é de 1912. A última viagem foi em 1967. A retirada dos trilhos data de 1971, provavelmente para sucata, matando a possibilidade de um circuito pra turismo.
Sobraram às estações descaracterizadas e os túneis, provas incontestes da sua existência.
E, claro, a história oral, como esta.
Durante a sua construção, os moradores da Parada Cristal, bairro de "Jerominho", revoltados, exigiram também uma estação. À época a distância era uma eternidade. Hoje, um pulo. Cederam e a cidade ostenta a primazia de ter duas estações no seu perímetro urbano.
Por seus trilhos/vagões, desci e conheci a "metrópoles" Cachoeiro, um trecho plano, veloz e de maior duração da viagem, onde estão as estações da Parada Cristal, Pacotuba e Coutinho, as duas últimas em terras cachoeirenses. Após Pacotuba, o trem corria às margens do rio Itapemirim, tempo de apreciar o grande volume d'água límpida em seu leito, contrastando com hoje, retrato da estupidez humana.
Em sentido inverso, subi e fui "nu" Alegre" conhecer a cidade jardim do meu "chapaço" - licença Dino -, Macarrão Carias, nas barbas do Caparaó. Viagem que incluía o trem serpenteando uma serra e a passagem por dois túneis.
É reminiscências dos cinco anos de vida, a primeira volta ao mundo além das fronteiras do alto da Jacutinga.
Não fui ao Rio de Janeiro "ver o escrete brasileiro jogar" pelos trilhos da Leopoldina. Não me convidaram pra festa, embora acompanhasse avidamente, com cara de "pidão", os preparativos que aconteciam na casa da Tia Mariquinha. Dos tecidos pra roupas novas, ao sapato e a matula, frango assado com farofa, bolo, biscoito e suco, sustento pra comer na noite interminável rumo à cidade maravilhosa.
Partiam e ficava a expectativa da volta, trazendo uma lembrancinha, e da próxima viagem pra ser o escolhido da vez.
Não aconteceu.
Arrancaram o caminho de ferro e a viagem veio nas rodas do ônibus.

sábado, 20 de março de 2010

Eu tenho siringomielia XII


Um tombo pra não esquecer

Acho que ainda tava inebriado pelo baticum da folia de outros tempos.
Rodopiei qual um mestre sala. Cadê a mão da porta-bandeira, Paula, pra segurar a euforia desta festa profana que insistia em aboletar-se de mim?
Desesperadamente, tentei segurar na cômoda. Foi inútil.
Restou desviar de uma cadeira de diretor e da porta, direcionando o corpo pra um espaço livre do chão. Como? Não sei. Talvez o instinto da preservação.
Resultado: -Tá lá um corpo estendido no chão, diria o locutor esportivo.
A mim restou: -Ai, ai, ai........ Socorro.
Agora é até engraçado e dá pra fazer troça com o episódio, nada mais humano.
Vade retro!
Passado o susto é hora de contabilizar o infame tombo. Aparentemente verifiquei que não quebrei nenhum membro, só que ele tinha sido diferente dos outros, uns quatro já contabilizados na caderneta. Canalizei o peso da queda pra cima da perna esquerda, a prejudicada pela guerra da siringomielia, sentindo um incomodo ao passar a mão sobre o fêmur.
Fizemos uma tentativa de levantar, tarefa que só foi possível com a ajuda de uma vizinha. Me colocaram sentado na cadeira, recuperei do susto, recobrei o autocontrole, e com o andador, caminhei até a cama.
Clareando: Na quarta pós carnaval, após o café da manhã, fui trocar o andador pelas bengalas canadenses, mais adequadas pra o acesso à piscina, e fazer a hidroterapia, rotina de três vezes na semana. Acho que juntou autoconfiança e imprudência. Vinha de uma excelente seqüência de exercícios, umas sete semanas sem faltas, que me proporcionou um bem estar há tempo não experimentado. Passei por um perrengue de uns sete meses sem a hidro. Na aldeia não tem piscina coberta e aquecida. Tô a mercê do humor do tempo. A seqüência nos exercícios dita os resultados.
A retomada noutra piscina, mais preparada, trouxe de volta meu otimismo, confesso, que às vezes se excede.
A imprudência foi ter colocado as bengalas num local inadequado da casa, embora das outras vezes tenha feito a operação sem o fatídico acidente doméstico. (Observou que agora uso andador, Leda Maria? Ele já me acompanha desde a cirurgia da hérnia na cervical, feita no Sarah, em outubro de 2008. É mais seguro e melhora minha mobilidade. A Leda é das amigas/amigos que acompanham a "evolução" da minha "mimi".).
Passado 24h, radiografei o local, mostrando uma fissura no fêmur. O ortopedista recomendou 30 dias de repouso. Há 12 dias experimento uma melhora sensível, confirmada na quinta 18/3, após novo raio-X. Agora são outros 45 dias em observação pra consolidar a fissura. Já voltei para o andador, projetando pra breve retomar a caminhada.
Não há que lamentar ou jactar-se.
A realidade é que a siringomielia vai minando o equilíbrio de um andante. Os exercícios - hidro e caminhada - têm garantido uma independência vital. Isto ficou evidente mais uma vez após o tombo.
Agora é procurar evitar outra bobeira, coisa que infelizmente tem hora que foge do controle.
Não desisti!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Rasteira política


Paira no ar certo enfado por conta do imbróglio da partilha dos royalties do pré-sal.
Quanta hipocrisia!!!! O cidadão minimamente informado sabe bem do que são capazes deputados federais e senadores. Lá tá o espectro da nossa sociedade.
Não é poeta Luiz Trevisan?
Passei pela Câmara, de 1995 a 98. O episódio que conto a seguir, respeitando suas peculiaridades, é uma pequena mostra daquilo que acontece ali.
Pesquei na correspondência do gabinete um jornal noticiando a tramitação de um Projeto de Lei - PL-, vindo do Senado, da senadora Junia Marise (MG), propondo a inclusão dos municípios mineiros do Vale do Jequitinhonha na Sudene.
A Sudene, agora jurassíca, à época era o pré-sal atual, e se destinava apenas aos Estados nordestinos pra "atrair investimentos" .
Todos queriam entrar pra debaixo das suas asas. Inclusive, nós. A base política do meu assessorado, ex-deputado Federal Adelson Salvador, é o Norte capixaba.
O achado deu gás a um mandato meio a deriva.
Preparamos o PL, relacionando 28 municípios acima do Rio Doce e utilizando dados econômicos do IPEA e pluviométrico do INPE, pra mostrar identidade da região com o Nordeste brasileiro.
O deputado fez seu discurso de praxe e protocolou o Projeto. A repercussão foi emediata na bancada e no Estado.
Três dias depois, entretanto, o PL bate à porta do gabinete com crivo: Inconstitucional.
Como? O da Junia pode e o do Adelson, não?
Ele foi ao encontro do então presidente da Casa, coincidência ou não, Michel Temer (PMDB-SP), que pegou a caneta, colocando o PL pra tramitar.
A iniciativa ganhou ares de redenção para a região e, claro, junto vieram os bicões, criando até uma espécie de árvore genealógica, tipo assim: Decavó, Tataravô, irmão, amante, pai, enfim, qualquer coisa que valha pra surfar nos louros do PL.
A mais bizarra veio da deputada Rita Camata (PSDB). Ela distribuiu aos vereadores da região, cópia do seu PL, embaralhando a relação dos municípios - o original estava em ordem alfabética -, e invertendo os parágrafos da justificativa.
A bola de neve cresceu..
Levamos a Nova Venécia, terra do Adelson, o Michel Temer. Sensibilizado, discursou pra mais de 250 líderes ali reunidos, garantindo a aprovação do Projeto.
Cumpriu sua palavra.
Não com o PL do Adelson, e sim com um artifício regimental, Emenda de Plenário, da Rita, assinada pelas lideranças partidárias. O desfecho foi na sessão que aprovou o PL da Junia Marise e que rejeitou emendas para o Norte fluminense e o Vale da Ribeira, SP.
Aí experimentei a temida "rasteira política" e entendi que pra não figurar no "baixo clero" é preciso articulação política, preparo e conhecimento do Regimento Interno.
E, claro, ter percepção do humor da Câmara, termômetro da sua temperatura política. Se tiver clima, passa tudo. É como abrir a porteira de um curral cheio.
A Sudene nasceu por Decreto Lei, o que, teoricamente, impediria de ser emendada por uma iniciativa do Legislativo.
O nhenhenhém do pré-sal, portanto, é um jogo.
E, político, cabra, não tem gratidão.
O que o zumbi Ibsen Pinheiros (PMDB/RS) fez com sua emenda "bode na sala", prometendo depenar Rio de Janeiro e Espírito Santo, na distribuição dos royalties do pré-sal, é do jogo.
Jogo que fica eletrizante às véspera das eleições.
Que venha o próximo lance.