domingo, 23 de fevereiro de 2014

Não verás mais de pé ou abatido, agora só em fotos como esta, um exemplar deste da outrora exuberante Mata Atlântica, que cobria todo o Norte capixaba, aqui sob o jugo dos caçadores de madeira. A foto não tem identificação de data, mas é possível imaginar que seja da década de 50 pra cá. Ela carrega um simbologismo marcante, expressado nos homens e crianças por estarem diante de um troféu. O Norte do ES foi nicho de madeiras nobres, destaques para o jacarandá e a peroba do campo. A foto foi publicada no grupo Nova Venécia - História, Memória e Imagem, no facebook.
 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

E o verde verdejou

Pude contribuir para que esta vegetação ocupasse o píer de Iemanjá, em Camburi, Vitória. Inicialmente eram três exemplares de espécies da restinga que foram parar lá, devidamente cuidadas com ajuda do marinheiro Pedro, sempre vigiando o pessoal da limpeza das ruas. Conversei com a amiga e também jornalista, Rita Bridi, à época na assessoria de imprensa da Secretaria de Meio Ambiente de Vitória, e outras mudas foram plantadas. Foi no ano de 1999 quando iniciei os passeios de escuna pela baía da capital. Reconfortante.
A experiência com o projeto da escuna foi dura, com perdas materiais significativas e também estressante emocionalmente, típico empreendedorismo sem os conhecimentos da atividade. Ou seja não basta só a ideia. A lucidez e o compromisso comigo de que a vida pode ser vivida sem a necessidade de ferrar o semelhante fez com que pulasse fora, sem ressentimento, seguindo em frente com o aprendizado.
 Foto Valtemir Figueiredo.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Uma leitura apaixonante

O ciclo do ouro no Brasil é um evento sem paralelo na história da humanidade. É uma amostra de que não basta ter só a riqueza. Por cerca de dois séculos e meio a busca por Sabarabuçu, uma montanha reluzente em ouro, incendiou a cobiça de plebeus e reis, ávidos pela fortuna fácil e o enriquecimento da noite para o dia. Ela existiu, não na forma de uma montanha, mas sim num eldorado onde o simples gesto de se arrancar uma planta do solo as suas raízes estavam impregnadas do metal. A exploração do ouro foi de 1697 a 1810 e o autor estima a produção em cerca de 1.000 toneladas, fora o contrabando. Boa Ventura, de Lucas Figueiredo, indicação do amigo e também voraz leitor, Heli Fonseca, é um passeio neste universo, desnudando fatos e personagens numa narrativa leve, compreensiva e rica, reconstruindo este importante ciclo da nossa história. Vale a muito a sua leitura.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Eu Tenho Siringomielia XIII

Aparando o mato.
Ou como me tornei um soldado de César, o imperador.

E como ele cresceu por aqui. Também a siringomielia continuou o seu avanço silencioso, limitando cada vez mais meus movimentos, agora acrescido de dores por todo o corpo.
São paralelos diferentes.
O mato cresce porque a natureza é sábia na sua reconstrução. Tem a capacidade de ir mudando de fases até voltar a se tornar uma floresta exuberante.
Já a siringomielia vai no sentido inverso, o que é o seu curso normal. Assim são os seres e os organismos vivos de Gaia. Cada um cumprindo o seu papel, por mais paradoxal que isso possa parecer.

No final de novembro de 2010, experimentei um novo revés na convivência com a siringomielia. Fui dormir com o corpo em pleno funcionamento, dentro dos padrões da época. Ao acordar no dia seguinte não acreditei no que estava acontecendo: O meu ombro esquerdo todo inchado, um vermelhão assustador e com o braço travado, sem movimento e dolorido.
-Perdi a minha asa esquerda, pensei.
Era o braço com o qual tocava a minha vida e pra onde tinha transferido grande parte das atividades manuais. As sequelas da "mimi" estão concentradas na perna esquerda e braço direito. O braço direito não está totalmente avariado, me permitindo arriscar algumas coisas que não pedem força, tato, sensibilidade. Forçando até que colabora.
Foi um "toco". O chão escafedeu-se. E agora criatura?
Um turbilhão de indagações permeou meus pensamentos, tentando encontrar uma saída ou uma resposta racional pra aquilo.
Esperei a segunda feira - aconteceu de sexta pra sábado - pra ir ao médico daqui, Marataízes/ES, sem muita estrutura. Depois, mais calmo e já racionalizando aquele acontecimento, fui buscar ajuda em Vitória. Se pretendo continuar mais tempo por aqui, então, é enfrentar mais essa adversidade.
O ortopedista que me atendeu - em 17/12, meu aniversário - foi uma dessas pessoas que são enviadas pra gente. Ele pediu alguns exames e uma consulta a um angiologista.
Aí aconteceu outro fato inesperado. Aguardava na ante-sala pra ser atendido e eis que aparece o Dr. João Sandri, conhecido de Manguinhos/Serra/ES, onde também morei, e não via há mais de 20 anos. Rememoramos diversos fatos daquele período e ele acompanhou a consulta, que ficou como cortesia por esse reencontro.
Saí de lá feliz com o acaso, reanimado e confiante naquela mensagem: Vai continuar vivendo.
Por não ter sido uma queda, o ortopedista descartou a cirurgia. Teria que me ajeitar com a asa esquerda avariada, minha mais nova companheira.
Eu tinha retorno/revisão marcado pra março de 2010, no hospital Sarah/Brasília, onde trato a siringomielia desde 1995. Era a oportunidade pra fazer outra checagem. Confirmaram o diagnóstico inicial: Deslocamento da junção do braço/ombro com desgaste do osso, sem uma causa pré-definida. Podendo ser tanto uma ação conjunta da doença ou sobrecarga no local pelo uso do andador ou outras causas como ficar com o braço pendurando em frente ao computador.
Ou seja, como a "mimi', não me restou muito alternativa. Era conviver com mais esse intruso e continuar assobiando pra vida.
Pra concluir. De soldado de César, paramentado com uma armadura, ou pássaro da asa quebrada, fui readaptando a vida com esta nova perda.
Injustiça? Destino? Sei lá. Estou mais dependente. Preciso de ajuda pra banho, vestir, servir comida, cortar um bife. Continuo dirigindo, passei a usar caneca de alça, como sozinho, teclando, mas reduzi o uso do andador pra não comprometer mais o ombro. Passei a usar um pouco mais a mão direita. A gente vai se readequando às circunstâncias e aos novos tempos. E vivendo. Que é preciso.

PS: Em 2012 "comemoro 20 anos" do diagnóstico da siringomielia.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

É presidenta!


Ainda me recuperando do tranco - não tenho elementos pra explicar -, e pra não deixar o mato tomar de vez, recebi este spam com uma análise interessante:

Marcos Bagno é opositor ferrenho a Pasqualle Cipro, a quem considera retrógrado e conservador. Ele é doutor pela Unicamp e joga no time de Sírio Possenti, que é aquele cara q é contra o ensino de gramática nas escolas, concordando com ele, ou não, o texto é muito bom e está bombando no twitter, até hj é o único linguísta a figurar nos TT`S (trending topics) que são os tópicos mais citados do mini blog. Confira:

Presidenta, sim!

Marcos Bagno11 de janeiro de 2011 às 10:58h

Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.

Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como Carta Capital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?

Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.

Marcos Bagno é professor de Linguística na Universidade de Brasília


É presidenta!


Ainda me recuperando do tranco - não tenho elementos pra explicar -, e pra não deixar o mato tomar de vez, recebi este spam com uma análise interessante:

Para quem não sabe, Marcos Bagno é opositor ferrenho a Pasqualle Cipro, a quem considera retrógrado e conservador. Ele é doutor pela Unicamp e joga no time de Sírio Possenti, que é aquele cara q é contra o ensino de gramática nas escolas, concordando com ele, ou não, o texto é muito bom e está bombando no twitter, até hj é o único linguísta a figurar nos TT`S (trending topics) que são os tópicos mais citados do mini blog. Confira:

Presidenta, sim!

Marcos Bagno11 de janeiro de 2011 às 10:58h

Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.

Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como Carta Capital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?

Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.

Marcos Bagno é professor de Linguística na Universidade de Brasília